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Marinha do Brasil foi pioneira no ingresso das mulheres nas Forças Armadas

“Brasil, tens agora as mulheres
A servir também em Armas
A Bandeira como escudo
A Marinha como espada
O exemplo, nossa missão”
Trecho do Hino “Mulheres em Armas”
Letra e música da  Capitão de Mar e Guerra (S) Sylvia da Costa Orazem
Extraído do livro Mulheres a Bordo, da Capitão de Mar e Guerra (RM1-Md) Sheila Aragão de Andrada e Capitão de Fragata (RM1-T) Helena Maria Peres
No mês em que foi sancionada a lei federal que garante igualdade salarial entre homens e mulheres, a Marinha do Brasil (MB) celebra o pioneirismo em admitir mulheres como militares na Força. A criação do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha ocorreu em 7 de julho de 1980, momento em que foram recrutadas mulheres com nível superior como Guardas-Marinha, as de nível técnico como Cabos; e as candidatas com habilitação profissional de nível auxiliar como Marinheiros-Especializados. A lei previa, desde então, que as integrantes do Corpo Feminino teriam as mesmas honras, direitos, prerrogativas, deveres, responsabilidade e remuneração dos militares homens.
A trajetória feminina nas Forças Armadas começou com a MB, em um processo gradual, iniciado com a criação do Corpo Auxiliar Feminino, seguido de uma reestruturação de Corpos e Quadros na Força, que ampliou a participação das mulheres em cargos de Direção, Comando e Comissões.  Desde a primeira turma de Oficiais e Praças femininas, até a nomeação da primeira Almirante, em 2012, essas pioneiras têm atuado em um importante segmento estratégico para o País. E, até 2024, as mulheres estarão incluídas em todos os Corpos, Quadros, Escolas de Formação e Centros de Instrução da Força.
Na década de 80, a Marinha não previa, ainda, a atuação das mulheres em áreas operativas, nem portando armas ou embarcando em navios. No início, tanto as Praças quanto as Oficiais que haviam ingressado na Força estavam ligadas às áreas técnica e administrativa. Naquele período, diferente dos homens, que começavam como marinheiros e depois eram especializados pela Força, as mulheres já poderiam iniciar suas carreiras em um nível acima, na graduação de Cabos, pois eram selecionadas com curso técnico. Em relação ao oficialato, homens e mulheres ingressavam no curso igualmente, como Guardas-Marinha, entretanto, naquele momento, o Corpo Feminino só poderia chegar ao posto de Capitão de Fragata, o que veio a mudar com leis posteriores. Mas, em relação às questões salariais, sempre perceberam o mesmo soldo e demais subsídios financeiros, que varia, até hoje, apenas de acordo com o posto ou graduação ocupados por qualquer militar.
É o caso da Suboficial Walkíria Sandra Bastos de Assis, que foi a primeira Praça do sexo feminino a servir embarcada em um navio da Esquadra. “Ingressei na Marinha em 1986, vocacionada pela carreira do meu pai, também militar. Hoje, estou há 37 anos servindo à Marinha do Brasil, e, há cinco anos, no Navio Doca Multipropósito ‘Bahia’. Tudo isso feito com muito orgulho e esmero, e até hoje continuo exercendo meu papel de militar e de marinheira da mesma forma”.
Suboficial Walkíria, a bordo do Navio Doca Multipropósito “Bahia”, onde participou de diversas comissões – Imagem: Terceiro-Sargento Jéssica Rosa
Além de ter mudado a questão do embarque em navios, de poderem atuar no meio operativo, o serviço também mudou, pois as mulheres puderam ter a oportunidade de atuar no timão de navios, como é o caso da Primeiro-Tenente (Médica) Jéssica Bastos Silva Castro, que serve no Navio-Veleiro “Cisne Branco”. “Fui qualificada, recentemente, para esse serviço, que consiste em governar o navio, de acordo com as coordenadas do Comandante e do Oficial de Manobra. E, pra mim, é um desafio porque saiu completamente da minha zona de conforto, mas eu acho que essa é a vantagem de servir em navio, de poder aprender coisas diferentes, e de crescer, não só na Marinha, mas pessoalmente, que são meus principais objetivos aqui”, disse.
Outro ponto positivo em ter mulheres embarcadas em navios é o fato de causar curiosidade e admiração no público que os visita, quando estão atracados nos portos do País, explica a Tenente Jéssica. “Essa é a melhor parte. As mulheres ficam felizes de ver outras mulheres na posição em que estou. Muitas me abraçam, me dão parabéns e declaram que eu as represento, e que sou aquilo que elas sempre quiseram ser. Então, isso me motiva a continuar, apesar dos desafios, por saber da importância que meu trabalho simboliza para outras”, compartilha.
Tenente (Médica) Jéssica foi qualificada para atuar no serviço de timão do Navio-Veleiro “Cisne Branco” – Imagem: Capitão-Tenente Arthur Janeiro
Histórico
O ano de 1980 foi um marco histórico para a MB, momento em que a instituição deu início ao processo para a entrada da primeira turma de Oficiais e Praças femininas. Foi um passo significativo rumo à igualdade de oportunidades nas Forças Armadas. A Capitão de Mar e Guerra (Enfermeira) Kátia Garcia foi uma das pioneiras dessa turma histórica. “Minha participação como militar iniciou em 1981 ao ingressar na primeira turma de Oficiais do Quadro Auxiliar Feminino. Foram 32 anos de serviço ativo, em que tive a chance de crescer, pessoalmente e profissionalmente, como enfermeira. A Marinha nos dá oportunidades no Brasil e no exterior”, afirmou.
A Capitão de Mar e Guerra Kátia Garcia foi da primeira turma de Oficiais do Corpo Feminino – Imagem: Arquivo pessoal
Posteriormente, elas ampliaram, paulatinamente, sua participação na Força, desenvolvendo atividades de nível superior e técnico, com demonstrações de qualidade e eficiência. Entre as Praças da primeira turma de mulheres, no Quadro Auxiliar Feminino, em 1981, está a Suboficial Maria da Gloria Baptista de Mello. “Ao ingressar na Marinha do Brasil, com vinte e dois anos rasos, era impossível prever o alcance da minha decisão, movida apenas pelo singular desejo de ser militar, ainda que não houvesse precedente em nossa Força Armada. Jamais pude imaginar o que esse pioneirismo representaria. Hoje, amadurecida pela vida, e fortalecida pela vivência naval, posso falar do meu orgulho de ser marinheira, e de ter integrado a primeira turma de mulheres nas fileiras da Marinha”, comemora.
Hoje, na reserva, a Suboficial Gloria atuou, quando na ativa, como técnica de laboratório em hospitais da Marinha, e afirma que entrar na Marinha foi uma decisão acertada. “Ao olhar para trás, marcamos o início [da entrada da mulher nas Forças Armadas] com muita honra. Nossa turma foi muito especial, com representação de todos os estados, pelos quais, muitas vezes, éramos identificadas. Fui criticada por trancar a faculdade e embarcar ‘nesse navio’ antes de graduar-me. E, quando me perguntavam o que eu pretendia na Marinha, simplesmente respondia: fazer carreira! Com certeza, ultrapassamos preconceitos, fomos pioneiras. Causamos surpresa nas pessoas, quando portamos, pela primeira vez, nossas fardas em público. Nas ruas, nos paravam e admiravam”, relembra.
Suboficial Gloria, na época do curso de formação da MB, em visita à Esquadra Brasileira, no Rio de Janeiro – Imagem: Arquivo pessoal
Conquistas
Em 2014, a Escola Naval recebeu a primeira turma de Aspirantes femininas para o Corpo de Intendentes da Marinha (IM). No mesmo ano em que elas se formaram (2017), outra significativa mudança estrutural aconteceu, a oportunidade de as mulheres exercerem atividades para a aplicação efetiva do Poder Naval, com o ingresso, na Escola Naval, no Corpo da Armada (CA) e no Corpo de Fuzileiros Navais (CFN).
Guardas-Marinha  Débora Corrêa e Helena Monteiro fazem parte da primeira turma de militares femininas, do Corpo da Armada e de Fuzileiros Navais, formadas pela Escola Naval – Imagem: Aspirante Enzo Pereira – Marinha do Brasil
Nessa primeira turma, estavam as Guardas-Marinha Débora Corrêa, do Corpo da Armada, e  Helena de Souza Monteiro, do Corpo de Fuzileiros Navais. A Fuzileira Naval afirma ser motivo de muito orgulho fazer parte da MB e, além disso, reconhece a oportunidade de ser primeira Oficial Fuzileiro Naval do sexo feminino formada pela Escola Naval. “Minha formação tem preparado tanto a mim, quanto aos meus pares, para sermos empregados nas diversas missões da Marinha, para estarmos sempre em condições de pronto emprego. Isso, para mim, é um motivo de grande orgulho: poder fazer parte, contribuir para a manutenção e conquistas dos objetivos nacionais, tudo em prol da população brasileira”.
Em 2023, a MB novamente escreveu um importante capítulo em sua história, com o ingresso das primeiras mulheres na Escola de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina (EAMSC). Esse marco simbolizou um avanço significativo na inclusão das mulheres nas diversas áreas de atuação e níveis hierárquicos da instituição. Para a Aprendiz-Marinheiro Anna Carla, ser militar na Marinha do Brasil é uma conquista, um orgulho e também um sonho.
“É uma conquista porque eu sempre quis ser militar, e sou a primeira mulher da família a seguir essa carreira. É um orgulho porque eu faço parte da primeira turma de mulheres Aprendizes- Marinheiros do Brasil. Além de ser um sonho, pois sou a continuação dos sonhos de todas as pessoas que lutaram para que eu chegasse até aqui”, pontuou.
Parte da turma de Aprendizes durante exercício de instrução marinheira no Navio-Veleiro “Cisne Branco” – Imagem: Marinha do Brasil
Ainda em 2023, a história das mulheres na MB ganhou outro momento significativo, com a admissão da primeira turma feminina no Colégio Naval, a instituição de ensino médio da Força. Uma das aprovadas, a aluna Isabella Marques Pereira, revela que ser militar na Marinha representa um grande privilégio, por poder representar muitas mulheres que quiseram ter essa formação, mas não tiveram essa oportunidade.  “Nós, em meio aos desafios que enfrentamos no dia a dia, temos a satisfação de fazer a diferença e representar várias mulheres do Brasil. Sou grata por essa oportunidade e espero contribuir, fortemente, com tudo aquilo que as mulheres têm a oferecer e a somar nessa instituição”, destaca.
Parte da turma de 12 candidatas aprovadas no concurso do Colégio Naval – Imagem: Marinha do Brasil
Ocupando espaços que eram, tradicionalmente, exclusivos dos homens, inclusive nos mais altos postos, a Marinha promoveu a terceira mulher Oficial-General, a Contra-Almirante (Médica) Maria Cecília Barbosa. A Almirante, com sua conquista, deseja inspirar outras mulheres a buscar posições de destaque. “Pela meritocracia, fui escolhida para o posto de Almirante, representando o quadro feminino, e nós [mulheres] conseguimos executar um serviço de qualidade, com determinação, coragem e sensibilidade, e prestar todo apoio à nação brasileira. Além disso, acredito ser de extrema importância criar nas pessoas o sentimento de patriotismo, incentivando o ingresso nas Forças, para compor o efetivo responsável pelo ótimo desempenho de sua missão principal, que é a de garantir a soberania nacional. Ter alcançado o posto também representa um estímulo para que mais mulheres se tornem militares, visto que elas podem ascender na carreira, em diferentes corpos e quadros, e atingir o mais alto nível hierárquico nas Forças Armadas”, ressalta.
Desafios
A Almirante (Médica) Maria Cecília explica que os principais desafios enfrentados pelas mulheres nas Forças Armadas estão relacionados ao próprio universo feminino, como equilibrar as tarefas de esposa e de mãe, por exemplo. “É desafiador conciliar questões relativas à preocupação com maternidade, saúde, educação dos filhos e obrigações domésticas, com os compromissos de uma carreira profissional, que exige dedicação e disponibilidade permanentes. Mas, apesar de todos esses desafios, a essência feminina, que revela uma sensibilidade apurada e uma grande persistência, nos ajuda a superar as dificuldades e, com força, foco e fé, conquistar todos os nossos objetivos”, afirma.
Sobre esse assunto, a Suboficial Gloria pontua a necessidade do serviço de pernoite, quando o militar precisa passar a noite, a bordo da organização militar em que serve, para cumprir serviço.
“No meu caso, quando na ativa, servia em hospital, como técnica de laboratório, eu cumpria a escala de serviço de Contramestre, mas afirmo que é possível conciliar a vida militar com a  pessoal, sim. Sou mãe de duas filhas, inclusive. Mas, é importante ter um suporte para auxiliar na supervisão dos filhos, principalmente quando ambos são militares. Contei com o apoio da minha família”, relembrou.
A Almirante Maria Cecília é Diretora do Departamento de Saúde e Assistência Social do Ministério da Defesa – Imagem: Marinha do Brasil
As mulheres militares da MB já conquistaram posições importantes, como as funções de Diretora de Organizações Militares, Chefe do Destacamento do Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade e Subchefe da Estação Antártica Comandante Ferraz. Também houve a participação feminina na Força-Tarefa Marítima na Força Interina das Nações Unidas no Líbano e na Missão de Paz das Nações Unidas na República Centro-Africana, que resultou no prêmio, por dois anos consecutivos, de Defensora Militar da Igualdade de Gênero da Organização das Nações Unidas, pelo trabalho realizado como assessora militar de gênero. Além disso, as mulheres compõem a tripulação dos meios da Esquadra, dos Navios da Esperança e dos Navios de Apoio Oceanográfico e Polar, no apoio à pesquisa científica no Continente Antártico.
A Suboficial Gloria espera que, diante de tantas histórias de sucesso, outras mulheres fiquem motivadas a se tornarem militares como ela. “Ao olhar para trás, vejo que marcamos o início [da participação das mulheres nas Forças Armadas] com muita honra. A Marinha continuou olhando adiante, sempre ampliando a participação das mulheres em todos os setores da vida naval. Vi na MB um espaço democrático, com pessoas diferentes em prol de um objetivo comum.
Fiz carreira, e digo mais, o sucesso da  ‘Turma 81’ ultrapassou as expectativas programadas, criamos novos espaços dentro da própria Força”, comemora. A suboficial Walkíria, por sua vez, também deseja inspirar as próximas.  “Que vocês possam dar o seu melhor, como mulher e como militar. E que, assim, consigam construir uma carreira sólida”, encorajou.
A Almirante Maria Cecília também tem essa expectativa. “O meu incentivo é para que as mulheres ingressem nas Forças Armadas, motivadas pelo patriotismo e pelo interesse em servir a instituições fortes e permanentes, que possibilitam o treinamento, a capacitação e a especialização em vários níveis e em diferentes profissões, que garante igualdade de trabalho, de direitos e de oportunidades às mulheres. E, onde, em decorrência do mérito e da competência demonstradas ao longo do tempo, poderão conquistar cargos e funções inéditas de grande importância na Instituição”, enfatizou.
As mulheres podem ingressar na Marinha das seguintes formas:
– Colégio Naval;
– Escolas de Aprendizes-Marinheiros;
– Escola Naval;
– Corpo Auxiliar de Praças;
– Corpo de Saúde: Quadro de Médicos, Quadro de Apoio à Saúde e Quadro de Cirurgião-Dentista;
– Corpo Auxiliar da Marinha: Quadro Técnico e Quadro de Capelães Navais, quando a religião permitir;
– Corpo de Engenheiros da Marinha;
– Quadro Complementar de Intendentes da Marinha;
– Serviço Militar Voluntário de Praças Temporárias – Marinheiro Especializado;
– Serviço Militar Voluntário de Praças Temporárias – Cabo;
– Serviço Militar Voluntário de Oficiais Temporários RM2;
– Serviço Militar Voluntário de Oficiais Temporários RM3;
– Soldado Fuzileiro Naval; e
– Sargento Músico Fuzileiro Naval.

As informações são da Agência Marinha de Notícias.

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